sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

CRESÇA E APAREÇA!




  


Um garoto de treze anos decide sair de perto mãe. Quero ir morar com meu pai, em outra cidade, em outro estado. Que remédio? O que aquela mãe poderia fazer? Tentar impedir? Pedir que não vá?
Não pôde. Decidiu apoiar. Procurou entender. Enxugou as lágrimas do seu coração de mãe e disse: "eu sei que ele vai sofrer. Mas o que eu posso fazer?
   De fato nada. Decidido, talvez nem tanto, ele foi. Entrou no avião, ganhou asas,alçou vôo, saiu do ninho. Naquele momento percebi que aquele garoto não tinha a dimensão do passo que ele dava, seu primeiro passo rumo a vida adulta, saiu da sombra das asas da mãe. Não era hora, eu pensei, senti apertar o coração. Depois me confortei,qualquer coisa ele volta.
   Mas não voltará, não aquele menino que partiu com inocência o suficiente pra acreditar que era sim a hora de enfrentar o mundo e aquele pai que ele não conhece, aquele pai que não o conhece e que caberá a ele conquistar.Logo ele que saiu do conforto acolhedor do colo de mãe. Jamais o veremos de novo, se ele não suportar, se ele pedir pra voltar, aquele que chegará de volta não será mais aquele menino.O passo estava dado. Quando entrou naquele avião decidiu, optou. É agora, quero crescer.
Essa é uma escolha que cabe a todos nós,embora as vezes há quem a protele tanto essa escolha que a vida é obrigada a outorgar-lhe: Ora vamos, cresça e apareça!
Crescer é uma sentença a que todos os viventes estão condenados. Sem saber direito como, vamos escolhendo sair ou  ficar, parar ou prosseguir numa espécie de corrida sem linha de chegada, sem rota e sem prêmio no final. Cada dia uma escolha, um conquista ou uma derrota ou os dois... Um dia você se olha no espelho e percebe. Putz, cresci! Não dá pra saber direito quando foi, em que lugar da estrada você deixou aquele jovem entregue aos arroubos, cheio de rompantes com toda aquela certeza que era dono do mundo.
Talvez o termo amadurecer não venha da idéia de estar pronto.Acredito que faça alusão à consistência e ao sabor .Uma fruta verde não é fácil de ser comida, é amarga ou azeda,dura; já uma fruta madura não, é doce, mole, no ponto de ser comida de ser desfrutada. Desfrutada pela vida. Os maduros são aqueles que aprendem que é preciso ser mole e ao mesmo tempo firme, não ficam mais dando murro em ponta de faca.Aprenderam que há horas de amolecer, retroceder  e que é imprescindível ser doce para ser saboroso e que para ser doce é preciso ser feliz.
  


Como dizia o poeta Vinícius de Moraes:

Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A CAIXA DE PANDORA

 






Certo dia durante uma das aulas no curso de graduação em Psicologia uma professora disse que  os psicólogos são treinados para fazer uma leitura do outro.

Pensando nessas palavras pude perceber quão bela e quão solitária pode ser a profissão de psicólogo, apesar de ainda não formada e por esse motivo não me possa intitular psicóloga minha identificação e engajamento no mundo da psicologia são de tal ordem que, embora não sendo, já me sinto como se fosse. Portanto, tomo a ousadia de fazer alguns desabafos fantasiados de reflexões.

A maior preocupação do psicólogo é o outro. Mais que a saúde, mais que o bolso seu compromisso é com o bem estar.

O psicólogo sabe da importância das palavras proferidas, dos olhares lançados das mãos estendidas ou recolhidas.

É como se os demais seres humanos fossem meio transparentes e nós pudéssemos ver as suas angústias, medos e as dores que carregam. Às vezes chegamos a compreender melhor o que se passa do que aquele que está vivendo a situação. Como se nós tivéssemos estado presente no momento exato da abertura da caixa de pandora, presenciando o nascimento das dores humanas e tivéssemos sido responsáveis pela atitude de fechar novamente a caixa de modo que nos somos como que guardiões do seu último conteúdo: a esperança. Sim, é isso. O psicólogo oferece mais que uma solução. Oferece o apoio, o acolhimento, pois sabe que sofrer é inevitável, mas que sem a esperança é quase impossível continuar, muitas vezes somos nós a luz no fim do túnel.

Esse ser o Psicólogo, embora acolhedor, ironicamente não pode acolher a si mesmo. Para que nos sintamos acolhidos, protegidos e amparados é preciso que se veja no outro algo em que se confie que se admire que nos ofereça abrigo.

Mas ao psicólogo é negado esse direito, pois sendo o outro objeto da ciência do psicólogo este outro se apresenta de igual forma aos demais transparente. O psicólogo tem a chave para abrir o baú dos seus medos, suas fraquezas e até, de vez em quando, suas mentiras.

Não é a toa que se diz que o amor é cego. Para que se permaneça nessa condição apaixonado é mister que não se tenha acesso às humanidades do ser amando e que, outrossim, ele permaneça idealizado, irretocável em seu pedestal.

Diante disso me pergunto: Haverá de fato algum psicólogo apaixonado?

Reafirmo a beleza que encontrei na psicologia, mas sinto as cobranças conseqüentes das cortinas que abri sobre os meus olhos para que me fosse possível compreender e confortar os futuros meus clientes.

Talvez, o que ainda reste seja o amor puro e quase incondicional, pois, ainda que vendo sem a máscara o ser amado esse ainda permanece amado.

Contudo, tal fato não se torna menos doloroso, pois, esse tipo de amor é quase abnegado. Porque amar aquilo que sabemos que nos fará sofrer é quase uma atitude masoquista. E ainda tem a pior parte, quando se é psicólogo adquire-se um respeito tal pela limitação do outro que já não se pode fazer cobranças, somos imbuídos de uma paciência e tolerância quase divinas. Embora doa, simplesmente sabemos que as pessoas só dão o que podem.

Sinto-me muitas vezes como que pairando sobre os demais, acometida por uma certa angústia como que querendo abrir mão de tudo e resgatar a minha humanidade, todo meu egocentrismo de acreditar que todos podem ser e agir como eu espero que sejam e ajam.

Acho que é bem como disse Nietzsche “a angústia é o preço da verdade”, a verdade que estava contida dentro da caixa de pandora.