sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A CAIXA DE PANDORA

 






Certo dia durante uma das aulas no curso de graduação em Psicologia uma professora disse que  os psicólogos são treinados para fazer uma leitura do outro.

Pensando nessas palavras pude perceber quão bela e quão solitária pode ser a profissão de psicólogo, apesar de ainda não formada e por esse motivo não me possa intitular psicóloga minha identificação e engajamento no mundo da psicologia são de tal ordem que, embora não sendo, já me sinto como se fosse. Portanto, tomo a ousadia de fazer alguns desabafos fantasiados de reflexões.

A maior preocupação do psicólogo é o outro. Mais que a saúde, mais que o bolso seu compromisso é com o bem estar.

O psicólogo sabe da importância das palavras proferidas, dos olhares lançados das mãos estendidas ou recolhidas.

É como se os demais seres humanos fossem meio transparentes e nós pudéssemos ver as suas angústias, medos e as dores que carregam. Às vezes chegamos a compreender melhor o que se passa do que aquele que está vivendo a situação. Como se nós tivéssemos estado presente no momento exato da abertura da caixa de pandora, presenciando o nascimento das dores humanas e tivéssemos sido responsáveis pela atitude de fechar novamente a caixa de modo que nos somos como que guardiões do seu último conteúdo: a esperança. Sim, é isso. O psicólogo oferece mais que uma solução. Oferece o apoio, o acolhimento, pois sabe que sofrer é inevitável, mas que sem a esperança é quase impossível continuar, muitas vezes somos nós a luz no fim do túnel.

Esse ser o Psicólogo, embora acolhedor, ironicamente não pode acolher a si mesmo. Para que nos sintamos acolhidos, protegidos e amparados é preciso que se veja no outro algo em que se confie que se admire que nos ofereça abrigo.

Mas ao psicólogo é negado esse direito, pois sendo o outro objeto da ciência do psicólogo este outro se apresenta de igual forma aos demais transparente. O psicólogo tem a chave para abrir o baú dos seus medos, suas fraquezas e até, de vez em quando, suas mentiras.

Não é a toa que se diz que o amor é cego. Para que se permaneça nessa condição apaixonado é mister que não se tenha acesso às humanidades do ser amando e que, outrossim, ele permaneça idealizado, irretocável em seu pedestal.

Diante disso me pergunto: Haverá de fato algum psicólogo apaixonado?

Reafirmo a beleza que encontrei na psicologia, mas sinto as cobranças conseqüentes das cortinas que abri sobre os meus olhos para que me fosse possível compreender e confortar os futuros meus clientes.

Talvez, o que ainda reste seja o amor puro e quase incondicional, pois, ainda que vendo sem a máscara o ser amado esse ainda permanece amado.

Contudo, tal fato não se torna menos doloroso, pois, esse tipo de amor é quase abnegado. Porque amar aquilo que sabemos que nos fará sofrer é quase uma atitude masoquista. E ainda tem a pior parte, quando se é psicólogo adquire-se um respeito tal pela limitação do outro que já não se pode fazer cobranças, somos imbuídos de uma paciência e tolerância quase divinas. Embora doa, simplesmente sabemos que as pessoas só dão o que podem.

Sinto-me muitas vezes como que pairando sobre os demais, acometida por uma certa angústia como que querendo abrir mão de tudo e resgatar a minha humanidade, todo meu egocentrismo de acreditar que todos podem ser e agir como eu espero que sejam e ajam.

Acho que é bem como disse Nietzsche “a angústia é o preço da verdade”, a verdade que estava contida dentro da caixa de pandora.


















3 comentários:

  1. Nossa! Você escreve muitíssimo bem! É isso mesmo!

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  2. Querida, adorei... to eu aqui tentando entender como um psicólogo me "desvenda", e se sou mesmo "um montro dentro da caixa". Gostaria muito de entender como vocês psicólogos conseguem estabelecer seus próprios relacionamentos afetivos sem que se tornem terapeutas de seus pares. Me indique alguma leitura, obrigado.

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  3. Cara Elena, seja muito bem vinda a esse blog, obrigada pelo comentário, fico feliz que tenhas gostado.
    Na verdade, creio que descobrir como não nos tornar terapeutas dos que nos cercam é um exercício diário que só podemos desempenhar com maior destreza a medida que vamos nos experimentando, desconheço alguma leitura que possa dar alguma diretriz a respeito, porém, afirmo com certeza que o processo psicoterapico pessoa é parte fundamental desse aprendizado.
    forte abraço.

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